O que acontece durante uma internação hospitalar?
- 12 de Janeiro de 2026
Hoje eu gostaria de compartilhar com vocês uma visão 360º sobre uma internação hospitalar, pois no meu dia a dia no Pronto Socorro Infantil lido com diversas situações e acho importante os pais conhecerem sobre tudo que norteia a decisão médica de internar o seu filho.
Primeiro eu gostaria de compartilhar quais são as principais indicações de internação para uma criança, pois muitas vezes os pais vão angustiados ao Pronto Socorro (PS) e ficam surpresos quando o pediatra indica uma internação. Primeiramente, e mais óbvio, são os quadros graves, mas o que consideramos grave? Um exemplo muito comum é uma criança com sintomas respiratórios em que a criança apresente dificuldade para respirar mesmo após as medicações realizadas no PS ou, quando essa mesma criança foi avaliada e medicada no PS e em um determinado momento esteve bem, foi liberada para casa com medicações mas logo retorna o desconforto para respirar a ponto de precisar ser trazida novamente ao hospital, percebem que essa criança está precisando muita medicação para ficar “bem” e, por isso, precisa ficar em um lugar com suporte para esse tratamento?
Uma criança cuja musculatura respiratória ainda está se desenvolvendo e se fortalecendo não aguenta ficar se esforçando para que o ar entre adequadamente nos pulmões por muito tempo. Sabe quando você não tem condicionamento físico para uma corrida ou natação e você se propõe a correr por 10 minutos ou nadar por 10 minutos e devido sua musculatura fraca você interrompe no meio do caminho por fadiga? É exatamente isso que pode acontecer com a musculatura de uma criança que está há muitas horas respirando com esforço, e isso se traduz em insuficiência respiratória e necessidade de suporte de oxigênio e, portanto, necessidade cuidados especializados - com médico, enfermagem e fisioterapeuta -, ou seja, dentro do hospital!
Outro exemplo que gera muita indicação de internação é uma febre prolongada (mais de 5 dias) ou quando não houve identificação da causa da febre nem no exame físico e nem por exames laboratoriais e de imagem e a criança não apresenta um estado clínico tranquilizador para ser observada em casa. Esses casos, nós internamos pois até a elucidação diagnóstica, nós não sabemos exatamente com o que estamos lidando, isto é, essa febre pode ser algo infeccioso, que é o mais frequente, mas pode ser alguma doença reumatológica, algum tipo de câncer ou simplesmente porque o corpo está demorando a acusar de onde está vindo a origem da febre, e aí não há muito o que se fazer, precisamos esperar para observar e enfim achar a causa.
Mas doutora, não posso observar essa febre em casa?
A resposta é: DEPENDE!
Caso seu filho tenha um pediatra em que você possa conversar durante o período de observação, ser avaliado com frequência no consultório e seu filho não apresente nenhum sinal ou sintoma que sugira gravidade, podemos sim observar essa febre prolongada ambulatorialmente, ou seja, em casa. Mas do contrário, é mais seguro que seu filho fique no hospital, pois caso haja alguma piora repentina ou algum sinal de alarme, ele está amparado para que medidas sejam tomadas rapidamente.
Outra situação comum de internação hospitalar é quando a criança não aceita a medicação prescrita pelo pediatra via oral, ou está vomitando a medicação, pois dessa forma, o tratamento não será eficaz, e dentro do hospital, todas as medicações e hidratação serão fornecidas endovenosa, garantindo assim o tratamento.
Então em resumo, sempre que a criança estiver apresentando sinais clínicos que sugiram gravidade, falha de tratamento em casa, dificuldade de realizar as medicações e medidas como limpeza nasal e inalação em casa, quadro que pode evoluir com gravidade nos próximos dias ou horas ou quando não sabemos exatamente com o que estamos lidando, há indicação de internação hospitalar.
E infelizmente nem sempre conseguimos definir um diagnóstico logo de cara, e para algumas doenças, certos critérios diagnóstico são justamente o tempo, isto é, um determinado sintoma precisa de “x” dias ou semanas de persistência para poder se enquadrar em um determinado diagnóstico, ou até mesmo para excluí-lo.
Fazer um diagnóstico é como montar um quebra cabeças, quando as pecinhas estão espalhadas a gente consegue ver que pelas cores possa existir um céu, uma parede, flores, um lago, mas até que a imagem se forme e tenhamos certeza do que estamos vendo, precisamos de todas as pecinhas. E isso é a arte da medicina, saber pensar em tudo que tem tom de “céu” mas que nem sempre é um céu, saber o que pode ser composto por tijolo, mas nem sempre é ser uma parede.
Contando desta forma parece ser bem objetivo e fácil o pediatra indicar um internação, mas embora tenhamos os critérios, eu sempre avalio também a situação da família, o suporte que a mãe ou o pai terão em casa com a criança, tento sentir o quanto essa família está insegura e com medo de não saber manejar os sintomas sozinhos em casa, se essa criança tem o suporte de um pediatra para ir tirando as dúvidas e orientando os pais em casa e no consultório, o desgaste de ficar saindo com a criança para ficar se deslocando até o hospital de novo e de novo, o risco de infecção domiciliar de um irmão mais novo ou alguém que more na casa e tenha a imunidade muito fragilizada, entre outras variáveis, e isso não é uma tarefa nada fácil.
Para mim, indicar uma internação é algo delicado e tento sempre ponderar o que é melhor primeiramente para a criança e depois para a família, pois sei que uma ida ao hospital gera medo na criança.
Imaginem a cena: ao chegar na triagem a enfermeira coloca o oxímetro no dedo, o termômetro na axila e já administra medicação quando necessário, tudo isso em menos de 5 min! Só essa manipulação por um desconhecido já gera medo. Enquanto isso, ainda na recepção, por trás da porta que leva aos consultórios médicos e à sala de medicação, a criança ouve gritos e choros de desesperos dos demais que já entraram e estão com mais medo ainda, pois eles nunca sabem quando vão tomar vacina, coletar exames, tomar injeção no bumbum, ficar no oxigênio, coletar swab nasal ou somente ser examinado pelo pediatra.
O fato é que algo que pode doer pode estar por vir!
E quando há confirmação da necessidade de coleta de exame? Mais manipulação, a criança precisa ser contida para não puxar o braço, bater as pernas e se machucar devido à agitação natural, a dor do furo, e além disso, veia de criança é super fininha, então é mais difícil de achar mesmo. E vou contar algo para acalmar o coração de vocês: quando a enfermagem entra com a agulha na pele e fica “procurando” a veia, isso não está machucando mais e isso não é porque o profissional não sabe o que está fazendo. Nossas terminações nervosas de dor estão na pele, então se ficarmos tirando a agulha e furando outro local da pele, isso sim vai causar mais dor!
Ocorre que a criança chora, berra, esperneia porque ela está com medo, é um procedimento que causará algum grau de dor sim, e é óbvio que ela não gostaria de estar ali, tampouco os pais - e a criança sente tudo isso!
Depois de coletado os exames, mantido o acesso venoso e seguindo com o processo de internação a criança passa por um experiência de não estar na sua casa, a rotina e o sabor da comida é diferente, o tratamento medicamentoso da enfermagem prevê horários a serem seguidos para medicação e controle dos sinais vitais (febre, frequência respiratória, oximetria, frequência cardíaca) levando novamente à manipulação a criança durante seu sono, as luzes do quarto são acesas a todo momento, medicações são aplicadas, lavagem nasal é realizada quando necessário e além da equipe de enfermagem, outros profissionais participam dessa rotina quando necessário, como fisioterapia respiratória e/ou motora, fonoterapia e equipe de curativo, além do médico!
Do ponto de vista dos pais, esse processo também é doloroso, porque embora eles estejam preocupados com a saúde da criança, eles sabem que toda uma rotina será mudada, pois eles terão de se organizar com o trabalho e a rotina da casa para que alguém sempre fique junto da criança no hospital.
Do ponto de vista administrativo, às vezes o caos começa com a seguradora de saúde, ou seja, os convênios, quando estamos em um hospital privado. Se tem algo que dá dor de cabeça para todo mundo, para o hospital, para a seguradora, para os pais, para o paciente e para o médico é quando o bendito do convênio está em carência! Diversos são os motivos para estar em carência de exames, internação, enfim, de vários serviços oferecidos ao paciente. Porém, para quem está na assistência (equipe médica e de enfermagem) isso se traduz em atraso de cuidados e não é papel nem dos médicos e nem dos enfermeiros cuidar desta parte administrativa, mas ocorre que neste momento várias condutas, medicações e exames são bloqueados e essa equipe não consegue trabalhar. Não porque elas não querem, mas porque o setor administrativo não está deixando! Neste momento a gente respira fundo e pede para voltar para o SUS - onde não precisamos lidar com esse tipo de situação!
Acho fundamental esclarecer essa situação para vocês, pois infelizmente, os profissionais de saúde sofrem muitos danos morais e injúrias muitas vezes não só verbal, mas física também quando estamos frente a esta situação! E isso não é da nossa jurisdição, logo, não podemos fazer nada para que o convênio nos deixe trabalhar! Nós também ficamos MUITO angustiados quando ficamos de mãos atadas em relação ao cuidado, pois o paciente está ali, na nossa frente necessitando de medicação, de leito especializado e não podemos fazer nada! Mais um momento em que a gente para, respira e reza para que tudo dê certo o mais rápido possível e que não soframos nenhuma agressão por parte dos familiares.
Então queridos, gostaria de mostrar esse olhar 360º da situação que é o processo de indicar uma internação hospitalar, pois de fato é algo que ninguém quer, mas o pediatra faz por necessidade e a criança também fica internada por necessidade!
Texto por Dra Alyne Brisotti

